29 de setembro, o dia D da trilha, Passo Salkantay

“Bom dia!! Preparado para o segundo dia, do Passo Salkantay?” pergunta o guia, enquanto meio zonzo eu ainda tento entender onde estou.

Sonhei que estava naquele baita hotel de Cusco, mas não, agora são 5 horas da manhã e eu estou na barraca num frio intenso, a 3.900 metros de altitude (um sonho antigo sendo realizado).

Hoje é o dia mais difícil da Trilha do Salkantay, em que subimos ao ponto mais alto até o Passo Salkantay. Quem passar ileso pelo segundo dia pode se considerar um grande trekker. Sair ileso?? Será esse o meu caso?

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Se não bastassem a dificuldade da trilha, o cansaço ainda de ontem e o ar rarefeito, hoje ainda tem um agravante sério. O solado da minha bota começou a se soltar ontem e estou agora o amarrando com corda e remendando com silvertape, mas sinceramente não sei se vai aguentar.

Já sinto o cheiro de café passado daqui. Troco de roupa rapidamente, arrumo a bagagem e saio para o café da manhã.

O pão foi assado aqui no acampamento mesmo. Também tem aveia com leite e banana, diversidade de chás (adivinha qual eu escolho), leite com achocolatado e o tal do café que senti de longe.

Saindo do acampamento Soraypampa

Agora são 7 horas e eu já começo a trilha com dor nos joelhos. Já tinha aprendido na trilha do Monte Fuji que o que acaba com o trekker é a descida, muito mais do que a subida, pois os trancos dos passos forçam muito a rótula.

Vim preparado, com um par de joelheiras para diminuir esses impactos, além dos bastões de caminhada, mas sinceramente não sei, não…

passagem para Cusco
Passagens aéreas saindo de

Soraypampa vai ficando para trás. Começo o dia no bloco da frente, mas pouco a pouco vou ficando para trás. O bom disso é que eu converso com todos 🙂 Com o guia que puxa o pessoal, com os de porte de atleta, com os mais ou menos em forma e com os que sempre ficam por último, seja por falta de condicionamento, seja por ficarem batendo papo com o guia de trás ao invés de dar um gás nos passos.

Ontem uma das participantes já tinha pego uma carona no cavalo de apoio. Eu desde o começo decidi não usar o cavalo em hipótese alguma. Tenho um desafio que não vou desistir de cumprir: terminar a trilha com minhas próprias pernas.

Depois de uma hora de caminhada, um segundo participante não resiste e pede carona. Agora é um homem, que parecia estar em forma e estava me acompanhando sempre no bloco intermediário. Meia hora depois, outro homem ‘pediu pra sair’.

É, cavalinhos, acabou o descanso, hora de trabalhar. Acharam que iam ficar só passeando pelas montanhas?

Leia também: Como ir de Cusco a Machu Picchu | O que ver e fazer em Cusco | Trem de luxo Hiram Bingham | Machu Picchu, a cidade perdida

Hoje é um dia muito difícil pois é o trecho que atinge a maior altitude: 4.638 metros, no Passo Salkantay. A trilha é super íngreme em muitos pontos e também muito estreita em outros.

Cavalo não!

Chego razoavelmente bem na parada para descanso em Salkantaypampa, a 4.150 metros de altitude. A verdade é que fui uns dos últimos e só queria saber de descansar muito e respirar, respirar, respirar.

Sim eu estava bem, mas algo acontece comigo quando vejo meia dúzia de meus companheiros de trilha se divertindo a beça, correndo, pulando para as fotos, como se estivessem num parquinho de diversões.

Depois de ter descansado já uns 20 minutos, começam os preparativos para continuar. Subitamente me sinto mal. Não sei o que está acontecendo comigo. Só consigo chamar a pessoa ao lado e pedir para ela chamar o guia.

O esgotamento toma conta de mim em um nível nunca antes experimentado. Escuto os guias comentando em espanhol: bla bla bla caballo, bla bla bla caballo.

Não! Cavalo não! Penso sozinho…

O guia traz o cilindro de oxigênio e eu fico por uns 7 minutos respirando pausadamente, me “alimentando” para poder continuar.

O guia diz:

– O Zach está bem. Ele vai caminhar e deixar o cavalo para você.

Não sei porque, mas na minha cabeça veio uma música dos Engenheiros do Havai: “eu não vim até aqui pra desistir agora!”

– Jonh, vou caminhar. Vou ficar muito frustrado comigo mesmo se eu usar o cavalo.

Ele orgulhosamente diz:

– É isso cara! Vamos! Vamos!

Superação, rumo aos 4.600 metros

O grupo já estava uns dez minutos a frente quando eu e o John voltamos a caminhar. O oxigênio está fazendo um efeito inimaginável, eu me sinto leve, respiro mais fácil, como se meus pulmões tivessem passado por uma reforma.

A oxigenação parece ter efeito também sobre os músculos. Agora sinto minhas pernas mais confiantes e determinadas. Vejo um dos cavalos de apoio, sumindo e reaparecendo a cada curva. Estou ficando cada vez mais perto do grupo, mas sinceramente não passa pela minha cabeça alcança-los. Para quê? Sigo no meu ritmo.

Depois de um bom tempo o guia me sorri. Não sei bem o que está acontecendo e sigo meu passo. Mais algumas curvas e outro sorriso.

– Consegue ouvir?

– Ouvir o que? Só escuto meu coração batendo acelerado e minha respiração ofegante.

– É o som da glória. Da sua glória.

Passo Salkantay

Paro para prestar atenção e escuto batidas sincronizadas, é um som de metal. Vários metais batendo como quem diz “vai, vai, vai”

– Cara, você conseguiu! Você veio sem o cavalo!

– Chegamos no passo? Chegamos no Passo Salkantay?

– Sim! Logo depois daquela curva!

Apresso a passada. Nessa hora o cansaço todo se vai, não sei como, não sei pra onde!

Faço a última curva e vejo todo mundo me esperando, formando um corredor, batendo os bastões de trekking.

Cheguei! Cheguei!!!

Montanhas Vilcabamba e mais caminhada, montanha abaixo

É hora de celebrar. O guia nos diz para relaxar e mais do que contemplar a vista das Montanhas Vilcabamba e da face sul do Salkantay, ele diz para pensarmos em nossas vidas, nossa trajetória pelos anos vividos e o rumo que ela está tomando.

Uma lágrima escorre. Simplesmente queria a Jú aqui comigo.

Como mágica o cansaço some e aproveito esse tempo para empilhar pedras, um ato de reflexão.

Enquanto isso o guia nos ensina sobre a cultura Andina, assim como fez pouco a pouco em cada parada de descanso.

Uns 10 minutos depois (só 10 para mim, pois alguns haviam chego a mais de 40 minutos) começo a descer rumo ao próximo ponto de acampamento. Vejo alguns condores voando pelos vales, dançando ao vento com graciosidade.

Agora é hora do almoço, em Wayracmachay. Falta pouco para chegar na margem esquerda do rio Salkantay onde está o acampamento Andenes.

O caminho é mais agradável que a primeira parte do dia, pelo menos parece, já que agora consigo reparar mais, ver as várias borboletas cruzando nosso caminho. As orquídeas ajudam a dar cores à paisagem.

O dia já está quase escuro quando finalmente chego ao acampamento, localizado a 3.200 metros de altitude.

Acampamento Andenes

A equipe de apoio nos espera com quase tudo pronto, inclusive o jantar.

Como em alguns momentos meio rápido e em outro, bem devagar, em um misto de pressa para terminar de jantar e ir dormir e de aproveitar esse momento acolhedor, onde todos comentam sobre os desafios superados hoje.

Não sei que hora é agora, mas sei que não está tão tarde. Entro na barraca, tomo um banho de lenço úmido, visto uma roupa quente e confortável.

Os pés doem mais do que as pernas e diferente de ontem, também doem mais do que a cabeça. O sentimento de superação faz a dor de cabeça quase que sumir.

Enquanto eu durmo aqui na barraca, dá uma olhada nas outras fotos de hoje…

Leia mais sobre o trekking Salkantay aqui: dia 1 | dia 3 | dia 4 | O segredo das montanhas

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Douglas Sawaki

Formado em Turismo e Hotelaria, com experiência em vendas e marketing na área do Turismo. Paulista que aprendeu a curtir São Paulo depois que deixou de ser um cara estressado. Meio sedentário, meio esportista, se é que você me entende.

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22 comentários em “Trilha Salkantay – Dia 2: Superação no Passo Salkantay

    1. Oi Clara!! Obrigado! Quando for, contrate uma empresa que oferece os cavalos de apoio, assim, se você não aguentar, vai de carona 🙂

  1. Foi um trilho bem doloroso mas conseguiste sem cavalo, parabéns! Adorei ler o segundo dia, lembrei logo o dia que passamos o trong la pass no trilho de Annapurna, no Nepal. Que dificuldade em andar e respirar ao mesmo tempo, mas no fim sabe tão bem, como uma vitória!

    1. Oi Marta! Obrigado!! Annapurna, que demais! Sabe bem o que passei então. Ainda faremos a trilha do Annapurna também, mas antes a do acampamento base do Everest 🙂

  2. Adorei seu relato! Fiz uma trilha longa no Himalaia há alguns meses e é impressionante como a altitude pega e deixa a gente completamente sem ar e exausto! Mas nos jogamos nessas aventuras pra desafiar os limites do nosso corpo e da nossa mente, não é mesmo?! Parabéns pela conquista! Boas aventuras aí!

    1. Oi Cissa, obrigado pelo comentário! A falta de oxigênio é a grande barreira mesmo, mais até do que a caminhada. Sim, desafiar os limites é que é a beleza dessas viagens. Ainda vamos fazer a trilha do acampamento base do Everest 🙂 Uma vez planejamos tudo, mas a ida não deu certo. Está tudo aqui arquivado esperando a oportunidade 🙂 Boas aventuras para você também!

  3. Quando estive no Peru fiz o Caminho Inca, que adorei, e por isso não fiz este. Dizem maravilhas deste trek. Um dia volto para experimentar. No Caminho Inca, o Dead Woman Path também é muito duro mas talvez por isso seja tão bom!

    1. Oi Carla, Quero fazer o caminho Inca também. Ele tem mais ruínas Incas né? Já o Salkantay tem mais paisagens das montanhas. cada um tem a sua beleza. 🙂

    1. Oi Martinha! Sim, gratificante é a palavra perfeita. Completar a trilha dá uma sensação incrível! 🙂

  4. Uau! Que história de esforço e de superação!! Ainda bem que conseguiu chegar lá acima sem o cavalo! Espero um dia também conseguir! Boas viagens!!

  5. Douglas, que relato mais gostoso de se ler!!!
    Sofri com você, cansei com você, vibrei e comemorei com você e me senti lá na trilha te acompanhando nesse seu dia de superação!
    Gostei MUITOOO e me emocionei de verdade com a sua chegada, e com esses companheiros maravilhosos batendo os bastões de trekking! Que experiência incrível! =)

  6. Olá, Douglas. Uma linda experiência que você nos contou. É verdade que o Caminho Salkantay é excelente e muito bonito, porém muito cansativo, mas vale a pena. Li todo seu post e pude reviver minha experiência com ele.

    Fiz o Caminho Salkantay há um ano. Fiz esta rota porque não consegui comprar a cota para o Caminho Inca, porém não me arrependo. De qualquer maneira algum dia voltarei ao Peru e farei este caminho.
    Parabéns, Douglas.

    1. Oi Marta, obrigado pelo seu comentário!!
      Que legal que você pode reviver a sua viagem e ter boas lembranças. Fiquei feliz. Eu também voltarei para fazer o caminho Inca, dessa vez com a Julia.
      Abraços,

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